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Tempo de leitura: 4 min.

Os monges e o OVNI: Quando a ira divina veio do espaço

Tempo de leitura: 4 min.

Por Átila Soares da Costa Filho

Afinal, o que poderia ser mais constrangedor que uma mentira? A resposta é: a mentira cínica, acrítica e contrária ao verdadeiro saber. E, infelizmente, é se valendo disto que muitos da comunidade ufológica agem na ânsia de dar materialidade ao próprio desejo de se convencerem – e aos outros – de suas “verdades”.

Os monges e o OVNI: Quando a ira divina veio do espaço
Representação medieval de um coro monástico durante liturgia:quem canta, seus males espanta (Getty images).

Era o dia 9 de fevereiro de 1953 quando a Times publica em Londres uma estranha carta dando conta da descoberta de algo assombroso. Assinada por um tal Sr.A.X.Chumley, tratava-se de um manuscrito medieval datado do ano de 1290, em plena Abadia da aldeia de Ampleforth (North Yorkshire, Inglaterra). Seu conteúdo estava em latim, e fora traduzido também pelo mesmo Chumley:

“… pegaram as ovelhas de Wilfred e as assaram para a festa de São Simão e São Judas. Mas quando Henry, o Abade, estava prestes a proferir a graça, John, um dos irmãos, entrou e disse que havia um grande prodígio do lado de fora. Então, todos saíram e lá estava! Algo grande e redondo, de prata, como um disco, voou lentamente sobre eles e provocou o maior terror. Foi quando Henry, o Abade, imediatamente bradou que Wilfred era um adúltero, por isso era ímpio…”

Isto, por si só, bastou para que se alardeasse na mídia mais uma suposta prova da presença alienígena na Terra, e se produzisse muito material de divulgação. A narrativa, ainda que carecendo de fontes ou detalhes, chegou a ser defendida por alguns dos maiores gurus da ufologia. O lendário George Adamski – e seu parceiro, o autor e cinegrafista Leslie Desmond -, como o astrônomo Jacques Vallée – uma forte autoridade -, eram dessas proeminentes personalidades se colocando na linha de frente em favor da chocante descoberta. Adamski e Desmond comentariam: “O que provavelmente aconteceu é que um disco voador passou, de fato, pela Abadia de Byland no final do século XIII, e que o astuto Henry, o Abade, aproveitou a oportunidade para implicar com Wilfred devido à sua conduta, e com a comunidade pela falta de sentimento cristão“. Em 1998 o autor Michael Todd dá crédito ao episódio no artigo “Monges avistaram um OVNI há 800 anos!

Os monges e o OVNI: Quando a ira divina veio do espaço
Vista da Abadia de Ampleforth, colégio e faculdade: fábula e bosque de conto de fadas (Foto: Allan Harris, 2017).

Vamos aos fatos: os problemas aqui já começam por conta do mosteiro de Ampleforth somente vir a ser edificado entre 1890 e 1897. Da mesma feita, a ordem dos tais monges se formaria apenas durante a Reforma Protestante – estamos falando da Era Moderna em pleno vigor, e não mais da Idade Média. Convenientemente, então, alguns autores se deram ao trabalho de transportar o evento para a abadia beneditina de Byland – esta, uma autêntica construção medieval. Ao que parece, o remendo brotara do livro Os discos voadores através dos tempos de 1965, do músico francês Paul Misraki (assinando como Paul Thomas). Já o autor Gabriel Green, em sua obra Vamos encarar os fatos sobre os discos voadores? (1967), abusa da licença poética e reformula toda a trama chegando, mesmo, a alterar a suposta data do ocorrido, como veremos:

“O Disco medieval do irmão John”

Era o início da tarde de outubro do ano de 1250 (Jacques Vallée escreve que teria sido em 1290), e os monges da Abadia de Byland, em Yorkshire, Inglaterra, preparavam-se para celebrar a festa de São Simão e São Judas. Henry, o Abade, havia descoberto que o irmão Wilfred escondera duas gordas ovelhas nos terrenos da abadia. O abade confiscou as ovelhas de Wilfred e suas suculentas carcaças assavam sobre uma lareira na sala de jantar. Os irmãos apresentavam um humor jovial.

‘Gostaria que você lavrasse os campos com a mesma disposição com que olha a carne do carneiro’, alguém dissera a algum outro companheiro faminto.

‘Pão preto e queijo não se comparam com carne de carneiro’, respondeu seu colega.

Enquanto os irmãos se reuniam para o jantar, ouviram um barulho na porta. Lá estava o irmão John, com um olhar aterrorizado.

‘O que aconteceu, irmão John?’ Perguntou o abade.

‘Eu estava caminhando em direção à abadia dos campos pensando no jantar de carneiro assado. Um barulho estranho ao alto me assustou. Olhei para o céu. Um grande disco prateado estava lá, em cima no céu.’

Os monges esqueceram o jantar e correram para o quintal.

‘Aí está!’, gritou Peter.

‘Mãe de Deus!’ Disse um irmão.

Henry, o Abade, e o irmão John saíram da sala de jantar. Um disco voador gigante pairava no céu e flutuava lentamente dentre as nuvens. Os monges estavam em pânico. Caíram de joelhos aos gritos de ‘dia do Juízo Final!’ e ‘é o fim do mundo!’, marcando suas orações frenéticas. Os monges, abalados, se voltaram para Henry, o Abade, pedindo esclarecimentos.

‘O que significa isso?’ – perguntaram.

‘Wilfred é um adúltero e deve ser punido’, retrucou o abade.”

Uma vez recauchutada a fábula, não tardaria para que o contra-ataque acontecesse. O editor e tradutor Gavin Gibbons, enquanto trabalhava o livro de Misraki para o inglês – e intrigado com as notórias inconsistências -, resolveu realizar um estudo independente. Segundo ele, haveriam sérias dúvidas sobre a genuinidade do texto, ao que declarou: “Dois graduandos de Oxford me confessaram em 1956 que falsificaram este documento apenas por brincadeira – mas não há nada que prove que realmente o fizeram!”. A pesquisa levantada por Samuel Rosenberg, da Universidade do Colorado, confirmaria se tratar de uma fraude – tanto que nem mesmo os ufólogos britânicos esboçavam mais grandes interesses pela nave medieval. Rosenberg foi colaborador no Estudo cientifico dos Objetos Voadores Não-Identificados em um relatório para o Comitê Condon e a Força Aérea norteamericana no final dos anos 60.

Finalmente, enquanto concluía (juntamente com Vallée) a obra Maravilhas dos céus de 2009, Chris Aubeck contatara o setor de arquivo da Abadia de Ampleforth, em 2002, a fim de colocar um ponto final na história. O arquivista responsável afirmaria que aquilo não passava de uma armação criada por dois jovens universitários: um, já falecido, e outro (talvez arrependido), já aposentado e solicitando ser deixado em paz… Fim da lenda.

O medo na Idade Média

A presença sobrenatural no imaginário medievo obrigava àquela gente conduzir a vida sob a égide do pavor divino… ou diabólico – e foi sustentado nestes pilares que a história do OVNI de Ampleforth quase se consolidou. Para o historiador francês Jean Delumeau, especializado no Cristianismo, a Peste Negra de 1348 – que ressuscitara outras tantas epidemias mortais -, as sublevações se revezando entre os paises, a “interminável” Guerra dos Cem Anos, o avanço turco com as derrotas em Kossovo e Nicópolis, o Grande Cisma, as cruzadas contra os hussitas, a decadência moral da Roma pré-Contrarreforma e a própria Reforma de Lutero – com suas catastróficas sequelas – seriam razões suficientes para que se vivesse obcecado com castigos vindo dos céus ou com a figura do Diabo, enquanto refém do pavor das profundas inconstâncias sociais. De fato, o período que compreende o espaço entre a crise do Feudalismo e o advento da Renascença é considerado como o auge da presença do Mal no imaginário europeu entre os séculos XIV-XVI.

Referências:

CONDON, Edward U. Condon E. Scientific Study of UFO – Vol.2, Universidade do Colorado. Denver: Regents of the University of Colorado, 1968 / National Capital Area Skeptics (versão eletrônica on-line), 1999. Disponível em: <http://ufology-news.com/u/18672430/Ufology_News/Condon_E._Scientific_study_of_UFO_vol2.pdf>. Acesso em 24 set. 2019.

DELUMEAU, Jean. A História do Medo no Ocidente (1300-1800): uma cidade sitiada. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.

RANDLE, Kevin. Alien Mysteries, Conspiracies and Cover-Ups. Detroit: Visible Ink Press, 2013.

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